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Joan Punyet Miró

A importância do legado

Villas&Golfe Pub.
Joan Punyet Miró no estúdio Sert, em Palma de Maiorca 2016

Foi só quase em adulto, e já depois da partida do avô, que Joan Punyet Miró, o neto, percebeu, verdadeiramente, que todos aqueles quadros, cheios de traços, cores e formas, tinham marcado o mundo para sempre. Joan Miró era um afamado pintor, escultor e ceramista. O neto sabia-o. Mas a aura de proximidade familiar sobrepôs-se à notoriedade de uma profissão que, em pequeno, pouco entendia. Embora, como explicou à Villas&Golfe, sempre tivesse tido noção de que o seu avô era diferente dos outros. «É claro que quando se vive num ambiente artístico não se repara em certos detalhes». Mas, alguns desses pormenores, a que na altura não prestou atenção, ficaram afinal gravados na sua memória. E foi com eles que conseguiu completar uma das maiores telas pintadas por Joan Miró, a da admiração de um neto pelo seu avô.

Diz o ditado que aquilo que é verdadeiramente importante uma pessoa não esquece. Por isso, Joan Punyet Miró recorda, da sua juventude, com mais naturalidade, o avô do que o artista. Dessas imagens fazem parte «os encontros familiares e os almoços de domingo, algumas tardes no terraço da sua casa a merendar ou a celebração de algum aniversário e Festas de Natal». Foi de um desses momentos que retirou uma imagem que nunca lhe saiu da cabeça. «Um dia, almoçava na casa dos meus avós e fui incapaz de deixar de observá-lo. Estava compenetrado a examinar um osso de frango que tinha retirado do prato. Para minha surpresa, limpou-o e guardou-o no bolso. Para um rapaz de dez anos, era uma imagem muito estranha. Anos depois, descobri que aquele osso tinha sido utilizado para a realização da escultura Chien Oiseau, de 1981».
«O que mais me impressionou foi a enorme quantidade de telas em branco que tinha preparadas para trabalhar no futuro»
Hoje, sabe também que houve, afinal, instantes, em que viu o avô e o artista fundidos no mesmo homem. Uma tomada de consciência que foi acontecendo aos poucos, como quando lhe foi permitida a entrada num espaço que até então esteve serenamente guardado. Um momento de tal maneira marcante que até a data merece ser destacada. Foi no dia 20 de abril de 1978, quando Joan Miró completou 85 anos. O neto, Joan Punyet Miró, recebeu permissão para entrar no estúdio do avô, pela primeira vez. Acompanhavam-no a avó, Pilar, e o irmão, Teo. «Foi a única ocasião em que visitei Miró na oficina Sert. Recordo-me de que me fascinou o colorido das suas obras e o odor do seu estúdio. As obras de grande formato encontravam-se longe da entrada e monopolizaram a minha atenção devido ao colorido dos fundos e à contundência do traço. Recordo-me que havia grupos de seis ou oito quadros, de pequeno formato, espalhados pelo chão, em que trabalhava simultaneamente. Tinha de mover-me com cuidado para não tropeçar num quadro ou em alguma das mesas, que transbordavam de garrafas, pincéis e latas de tinta. Sem dúvida, um dos detalhes que mais me impressionou foi a enorme quantidade de telas em branco que tinha preparadas para trabalhar no futuro».
Mas o futuro tem por vezes o pavio curto. Hoje, volvidos 33 anos desde o desaparecimento do artista, o neto continua empenhado em elevar com orgulho um nome incontornável do movimento surrealista. Desde a Successió Miró [uma empresa criada em 1996 para administrar os direitos das obras do artista] juntamente com as fundações de Barcelona e de Palma de Maiorca, que realizam um intenso trabalho de difusão da sua obra através de exposições. «Além disso, entre outras tarefas, estou envolvido na publicação de catálogos detalhados e processos de autenticação. Tudo isto será reforçado com a recém-criada Fundação Mais Miró, em Mont-roig, Tarragona», contou o neto.
«Uma coleção como esta, na minha opinião, deve permanecer unida. Anular a sua venda foi um passo importante para evitar a dispersão das obras»
Por cá, em Portugal, mais propriamente no Porto, ficou resolvida há alguns meses uma questão que tocou temas sensíveis à Nação, como a cultura, a política e o dinheiro. Tudo pesado, ficou a ganhar o país com a Materialidade e Metamorfose de Joan Miró, que passou a figurar na Casa de Serralves. Sobre isso, Joan Punyet Miró demonstrou a sua satisfação com o desfecho da história. «Uma coleção como esta, na minha opinião, deve permanecer unida. Anular a sua venda foi um passo importante para evitar a dispersão das obras, tendo sido o desempenho do Estado português exemplar. Agora, a cidade do Porto, em particular, e todos os portugueses, contam com um importante legado para acrescentar à sua herança cultural». E a importância dessa herança não passa despercebida ao público, que um pouco por todo o mundo exalta os quadros do artista. O segredo, esse, poderá estar em muitos detalhes. Na simplicidade dos traços, nas cores vivas e na mágica pessoa que terá sido Miró. *

* Agradecimento especial ao especialista em arte Miquel Trafach

Sala de exposição Miró, na Fundação Serralves 2016
Sala de exposição Miró, na Fundação Serralves 2016
Sobreteixim 12, 1973
Sobreteixim 12, 1973
Painting, 1953
Painting, 1953
Personnage, 1960
Personnage, 1960
Le Chant des oiseaux à l’automne, 1937
Le Chant des oiseaux à l’automne, 1937
Joan Miró e Pilar Juncosa no Mas Miró, Mont-roig c. 1950
Joan Miró e Pilar Juncosa no Mas Miró, Mont-roig c. 1950
T. Filomena Abreu
F. Direitos Reservados