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Isabel Gordo

«Não tenho a menor dúvida de que a ciência vencerá o vírus»

Iniciou os estudos em Física, mas decidiu enveredar por um doutoramento em Biologia Evolutiva. Em 1997, Isabel Gordo chegou ao Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) como aluna de doutoramento, tendo como mentores professores de topo, como o seu orientador Brian Charlesworth. Esteve em Edimburgo, depois na Universidade de Oxford. Voltou a Portugal e ao IGC. Actualmente lidera o laboratório de Biologia Evolutiva e a sua equipa conseguiu sequenciar 24 genomas do novo coronavírus, uma informação preciosa que ajudará a perceber as suas imprevisíveis mutações.

Que projectos tiveram de interromper para estudar o novo coronavírus?
Tivemos de redireccionar os dois projectos principais da nossa investigação: o estudo da dinâmica de evolução no microbioma intestinal; e o desenvolvimento de novas maneiras de eliminar bactérias resistentes a antibióticos. Em cerca de um mês estudámos tudo que achámos necessário à nossa expertise para combater a Covid-19 e este perigoso coronavírus SARS-CoV-2. No início do mês de Abril começámos a analisar a evolução do SARS-CoV-2 e a desenhar um plano em colaboração com os virologistas e imunologistas do IGC para começar dois novos projectos.  

Sequenciaram três genomas do novo vírus. O que é que este feito possibilita?
Já sequenciámos 24 genomas ao todo. Os genomas sequenciados pertencem aos clusters actualmente identificados em todo o mundo. A sequenciação fornece dois tipos de informações críticas para o combate à Covid-19: sobre as possíveis cadeias de transmissão, o que nos permite fazer o tracking da cadeia de propagação do vírus; e sobre alterações em regiões importantes do vírus na sua interacção com as nossas células. Em termos práticos, com esta informação podemos avaliar como o vírus se vai geneticamente alterando à medida que se propaga pela população e geograficamente. Esta informação é crucial para definir estratégias para o conter e para futuros tratamentos da doença que provoca.

O que é que os genomas do SARS-Cov-2 têm de diferente em relação a outros coronavírus?
Têm o código para um gene, o da coroa do vírus, que é diferente dos outros, na medida em que têm um conjunto de letras (nucleótidos) nesse código que fazem com que o vírus tenha uma afinidade maior para um receptor importante em algumas das nossas células. É importante notar que esta é a terceira vez que um coronavírus nos causa um susto, e este SARS-CoV-2 é um vírus mais infeccioso e mais silencioso. Muitas pessoas podem estar infectadas sem ter sintomas e podem transmiti-lo de uma forma que não é óbvia. É por isso que temos que testar a população intensamente e analisar todos os genomas dos vírus que conseguirmos. Deste modo, estou convencida de que ganharemos a batalha: o vírus cresce, muta, transmite-se, mas não pensa; por outro lado, nós sabemos como contar quantos vírus há, como mutam e evitar a sua transmissão em tempo real.   

«Esta é a terceira vez que um coronavírus nos causa um susto, e este SARS-CoV-2 é um vírus mais infeccioso e mais silencioso»

Que conhecimento científico e tecnológico de que dispunham está a ser útil nesta investigação?
Este é um vírus novo e, no Instituto Gulbenkian de Ciência, redireccionamos todo o nosso conhecimento científico e as plataformas tecnológicas de que dispomos para o conhecer e vencer. Iniciámos novas linhas de investigação: uma pretende perceber de que forma o ser humano reage a este vírus (em algumas pessoas é mais crítico e noutras não) e que factores genéticos estão na base desta diferença. Por outro lado, outros investigadores querem aprofundar a biologia do vírus a um nível mais básico, usando células que ele infecta de modo a perceber como pode o nosso organismo tolerar este vírus.

Havendo uma comunidade científica do mundo inteiro a estudar este vírus, acredita que a vacina será uma realidade em breve?
Não tenho a menor dúvida de que a ciência vencerá o vírus rapidamente e que uma vacina será desenvolvida em tempo recorde. Todos os investigadores estão concentrados nesta urgência e os investigadores do IGC não são excepção, pelo contrário, mobilizaram-se rapidamente para encontrar soluções e fazerem parte da resposta à pandemia.

«Os investigadores do IGC mobilizaram-se rapidamente para encontrar soluções e fazerem parte da resposta à pandemia»

Que lições os cientistas devem tirar desta provação?
Que têm de estar disponíveis para contribuir para um sistema de defesa forte a vários níveis, incluindo o que assegura a nossa protecção para os inimigos mais óbvios: como os vírus que convivem naturalmente com os animais selvagens. Também me parece que o papel da ciência em informar a classe de pessoas que nos governa se vai fortalecer. Os cientistas são descobridores e não políticos, mas as suas descobertas devem ser por eles explicadas com humildade e ser sempre ouvidas para que a sociedade beneficie das melhores decisões possíveis. 

T. Maria Amélia Pires
F. Direitos Reservados