· Personalidade · · T. Maria Cruz · F. ©PMC

Conde de Calheiros

«Tenho vivido uma vida muito intensa»

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Recebeu-nos no Paço de Calheiros – que existe desde a fundação de Portugal –, a sua casa de família, o lugar onde nasceu e por onde já passou o bisavô, a trisavó, o pai e a tia Teca. Aos sete anos, o «menino» rumou à capital, Lisboa, para ser educado pela tia. Durante a nossa visita, apresentou-nos a casa e falou-nos dos momentos que nela viveu nos últimos 60 anos. A sua simpatia e o bem-receber ficaram-nos na memória, assim como o seu sorriso. É um verdadeiro gentleman. Deu-nos a conhecer, também, o projeto de Turismo de Habitação – o Conde é um dos fundadores da Associação do Turismo de Habitação (TURIHAB) –, na freguesia de Calheiros, que divide com ele o nome da família. Nesta entrevista, Francisco de Calheiros partilhou ainda connosco a sua boa relação com a vizinha Galiza, uma ligação que a família mantém desde a longínqua Idade Média. Destacou ainda os Caminhos de Santigo, o Turismo em Portugal, Ponte de Lima e sempre… a sua família.

Qual é a atividade desta casa? 
A atividade desta casa começou com o Turismo de Habitação. O meu pai deu-me a casa em 1980. Recuperei-a entre 1980 e 1986. Depois começaram a chegar os primeiros hóspedes. O primeiro hóspede infelizmente faleceu em 2018. Foi o Primeiro-ministro da Holanda, Ruud Lubers. Um grande amigo. Mantivemos relações, ele veio cá várias vezes, eu fui lá várias vezes. Hoje, grande parte dos nossos hóspedes é oriunda da Holanda. 

Oriundos da Holanda por várias razões, certo? 
Sim. Vi-me envolvido em projetos de cooperação internacional em que a Holanda também entrou. Quando recuperei a casa também fundei a TURIHAB, que hoje tem 120 casas a nível nacional, e cuja sede é em Ponte de Lima. Trata-se de casas antigas, casas solarengas. É uma associação que defende o ambiente, o património e a sustentabilidade. O turismo é a grande ajuda e, ao mesmo tempo, também desenvolvemos os produtos da casa. Temos as hortas, a vinha, os castanheiros, os animais, e até o cantinho da lavanda (risos). As frutas transformam-se em compotas, que é o que oferecemos aos turistas; os vegetais transformam-se nos acompanhamentos da comida que servimos e o vinho é para celebrar. Desenvolvemos a nossa microeconomia para que ela crie autossustentabilidade e produtos bio, que hoje toda a gente procura.

O Paço de Calheiros produz vinho apenas para consumo próprio? 
Neste momento ainda não vendemos para o exterior. É fabrico para consumo próprio. Temos dois tipos de vinho da casta Loureiro: o Quinta do Paço Calheiros e o Conde de Calheiros. O meu pai fundou a adega cooperativa de Ponte e Lima, por isso, mandávamos as uvas para a adega. De há seis anos a esta parte é que o meu filho se lembrou de produzirmos vinho. É um vinho com sucesso. Damos a conhecer o vinho verde aos nossos turistas.

Há também um ‘amigo’ muito especial que recebe o turista... falamos do Leão, cão cá de casa. 
Os cães cá em casa sempre se chamaram Leão. Não sei se foi por esta forma atávica de querer ter um Leão. No tempo do meu pai criavam-se cães de caça. Depois, na nossa geração, vieram cães Serra da Estrela. Depois, veio o Labrador. Esse Labrador ainda é vivo e, agora que veio este, que foi uma oferta do Dom Duarte – de quem sou amigo –, houve um problema. Chamamos-lhe de Leão. O meu filho até disse: «pai, não se pode chamar de Leão porque quando se chamar pelo cão eles não vão perceber por qual se está a chamar e vêm os dois». Digo-lhe: «ó Francisco, o menino chama-se Francisco, e o seu pai também se chama Francisco, e não é por isso que a gente não sabe quem chama por nós» (risos). Então tivemos de os distinguir. Como este foi dado pelo Dom Duarte então passou-se a chamar-se Rei Leão. Assim temos o Leão e o Rei Leão. 

«Ainda posso fazer muito pela terra, sobretudo por Ponte de Lima» 
Fale-nos um pouco da família «Calheiros»...
A família próxima não é muito grande. Mas a família Calheiros está um pouco por todo o lado, por exemplo, no Brasil (o ex-Presidente do Senado Brasileiro chama-se Renan Calheiros). Aliás, os Calheiros estão sediados no Brasil no Estado de Alagoas, que é um estado ao lado de Pernambuco. Já tive a oportunidade de ir lá e apresentar a família Calheiros aos Calheiros do Brasil. E convidei-os para cá virem. Também existem alguns Calheiros no Recife e em São Paulo. Existe a praia de Calheiros, que fica em Florianópolis. É uma pequena praia de pescadores onde nunca perdi a ideia de, um dia, criar lá um cantinho meu.

O Brasil é-lhe especial? 
Vivi no Brasil três anos. Na altura em que a nossa terra estava mais efervescente, a seguir ao 25 de Abril. A minha filha mais velha nasceu lá. Sou embaixador do Rio do janeiro. Este ano fui chamado ao Rio e deram-me este galardão. As minhas relações com o Rio e com as fazendas são muito fortes. Criámos no Brasil, através da TURIHAB, as «Fazendas do Brasil». Assim como criámos, a partir da TURIHAB, uma rede europeia: a «Europa das Tradições», com a associação na Inglaterra, Irlanda, França, Holanda, Áustria, Hungria, Eslovénia  (sou Cônsul Honorário da Eslovénia no Porto e norte de Portugal) e Itália.

Leva a TURIHAB ao mundo. 
Recentemente estive em Macau, onde estive envolvido na apresentação da TURIHAB. Estive, também, em Veneza, num congresso organizado pela OCDE. Também estive na vizinha Galiza, porque há uma proximidade e intercâmbio com a Galiza. A Galiza é tão importante para esta casa (Paço de Calheiros) como o Norte de Portugal. Isto está não só no relacionamento entre as pessoas. Há um relacionamento político e cultural, em que tenho uma presença permanente na Galiza e vice-versa.

A Itália também lhe é muito especial?
A questão de Itália originou que, hoje, nesta casa, se fale, como dizem os italianos, mezzo italiano, mezzo português. O meu filho casou com uma italiana, Elena Ravano, que tem também um castelo lindíssimo – Castello di Rivalta –, em Piacenza, Itália. Fica numa belíssima cidade, a 100 km, a sul, de Milão. No meio disto também somos, eu e o meu filho, Cavaleiros de Malta. Sou chanceler da ordem nacional.

Traz-lhe recordações, esta casa? Afinal nasceu aqui. 
Nasci aqui. A casa sempre esteve em restauro. Digo que acabei o restauro em 1986, mas, até hoje, nunca parei de fazer obras (risos). Isto nunca mais acaba. Aquela janela que viram a restaurar… eu tinha dito aos carpinteiros: «vocês tenham cuidado, essa janela foi mandada fazer pelo meu avô». Essa janela e essa varanda têm mais de cem anos. Gostava de ter tempo para poder sentar-me lá em cima, na biblioteca, e escrever. Tenho algum jeito para escrever. Na minha época, das paixões assolapadas, escrevia versos. Tenho vivido uma vida muito intensa, desde pequerrucho. Todos nós temos a nossa vida, as nossas histórias, os nossos sentimentos e as nossas vibrações.

«Hoje o tratamento do turismo faz-se muito com afetos e com a capacidade extraordinária de cativar pessoas, para que elas queiram repetir e voltar»

A dedicação que sempre demostrou ter às gentes de Calheiros e de Ponte de Lima é notória. Isso reflete-se nas homenagens feitas. Sente que este reconhecimento é merecido? 
Fui Presidente da Junta desta freguesia durante 20 anos. Foram cinco mandatos sempre eleito por maioria absoluta. Porquê? Porque me dediquei à terra e não porque era quem era. A política é muito ingrata nisso. Quando me dediquei ao serviço público, dediquei-me de alma e coração. Posso dizer que esta freguesia se transformou completamente. As pessoas reconhecem isso. Um dos reconhecimentos que tive, e que mais me sensibilizou, não veio daqui, veio da Galiza. Tenho a Medalha da Galiza, que é a mais alta condecoração da Galiza. É como se fosse cá (em Portugal) a Ordem Militar da Torre e Espada. Foi dada pelo Dom Manuel Fraga, pelos serviços que fui prestando em prol do Caminho de Santiago e  do Turismo da Galiza. Fui eu que criei o Turismo Rural da Galiza. Fraga veio cá e eu fui lá, várias vezes. Era uma das pessoas por quem tinha uma grande amizade. Também tenho reconhecimento português. Tenho a Medalha de Mérito Turístico do governo português. 

Encara esse lado como uma missão bem cumprida?
Acho que ela (missão) ainda não acabou. Já fui desafiado para várias coisas, para assumir vários cargos. Nunca disse que sim. Mas acho que ainda posso fazer muito pela terra, sobretudo por Ponte de Lima. 

De que forma o pode fazer?
Isso não está nas minhas mãos. Sou Presidente da Associação do Desenvolvimento Rural Integrado do Lima (ADRIL), que tem apoiado muito projetos na região. Para ter uma ideia, desde 1991, e já lá vão 28, nós apoiamos aqui, ao nível do Vale do Lima, mais de 50 milhões de euros em projetos. A ADRIL ocupa todo o Vale do Lima, apoia desde o Parque da Peneda-Gerês até Viana do Castelo. Gostaria de poder dar algo mais a Ponte de Lima. E estou disponível para que isso possa acontecer, mas não está nas minhas mãos. As pessoas sabem que estou disponível, se precisarem de mim irão falar comigo. 

Representa o Turismo de Habitação. Que importância tem este tipo de turismo nas zonas mais rurais?
O turismo, em Portugal, tem evoluído muito e o Turismo de Habitação sempre foi um ícone, que foi lançado em 1980, exatamente com o objetivo de recuperar património e apoiar o turismo de interior, ou seja, em vez de estarmos a criar unidades hoteleiras descaracterizadas no interior, porque não recuperar edifícios com arquitetura que pudessem ser utilizados para alojamento turístico? Foi assim que nasceu o Turismo de Habitação. E ele, através da nossa associação, através dos Solares de Portugal, tem cumprido essa missão. Nós certificamos e qualificamos as casas. Hoje, o Turismo de Habitação tem uma imagem elevada de qualidade, que se distingue de outras modalidades que foram aparecendo.

Tais como?
Por exemplo, o Alojamento Local, que, se calhar, ao nível das cidades tem resolvido muitos problemas. Tem recuperado edifícios. Ainda, há dias, me dizia o meu primo e homónimo Francisco Calheiros, Presidente da Confederação do Turismo de Portugal: «o Alojamento Local é o nosso Low Cost». Mas o facto é que essa situação criou alguma ‘não obrigatoriedade’ de regras a cumprir, que nós temos no Turismo de Habitação. Não somos uma unidade hoteleira, somos, sim, um turismo familiar. No meu ponto de vista, e tenho chamado a atenção da senhora Secretária de Estado do Turismo, é preciso olhar para o Turismo de Habitação. O Turismo de Habitação, em Portugal, é um ícone.  É receber os nossos turistas na primeira pessoa, é contar a História das histórias, é viver uma oportunidade única de relacionamento. Portanto, hoje o tratamento do turismo faz-se muito com afetos e com a capacidade extraordinária de cativar pessoas, para que elas queiram repetir e voltar. 

«Acredito que a aposta no Turismo de Habitação é uma aposta com futuro»


Conde de Calheiros com o seu cão Rei Leão
Mas já há, dentro do conceito de Alojamento Local, quem trabalhe um pouco esses aspetos.
Sim, mas é diminuto. Por incrível que pareça, quem são os maiores promotores, chamemos-lhes assim, do Alojamento Local? É a hotelaria. Quem são os donos do Alojamento Local? É a hotelaria. Nós não somos um alojamento turístico.  Nós somos um produto turístico. Cada vez mais o perfil do nosso turista é aquele que vem em busca de experiências. Esta casa, hoje, recebe grupos, e não são peregrinos propriamente ditos, são pessoas que organizam viagens para andar a pé. Fazem o Caminho de Santiago. É um caminho de peregrinação, mas a maioria das pessoas não o faz diretamente por uma questão de fé. Ainda que depois acabe por ser envolvida por ela, presumo, mas fá-lo com o objetivo de andar a pé e como itinerário cultural. 

De que forma, com as políticas atuais, se pode impulsionar mais este tipo de Turismo de Habitação. O que se pode ou deve fazer?
Não há outra forma senão promovê-lo. Falar dele. E, ao mesmo tempo, também nós, no TURIHAB, vendemos itinerários; circuitos; experiência do vinho verde; experiência do vinho do Douro; experiência dos jardins. Acho, sobretudo, que a tutela, que é a responsável máxima do turismo, deve fazer qualquer coisa. 

Mas o quê exatamente?
Introduzir nos seus Visit Portugal, introduzir nos filmes sobre promoção de Portugal, introduzir no marketing externo de Portugal, os Solares de Portugal. Não se promovem as Pousadas? Então porque é que não se promovem os solares?

É idêntico ao que acontece nos destinos do Interior do país. Não são tão divulgados.
Exato. Hoje os municípios já fazem um esforço grande para que as coisas aconteçam de outra maneira. Fazem-no através de eventos. A televisão também é um meio de divulgação. Nós tivemos, por exemplo, as Sete Maravilhas das Aldeias. Agora está-se a programar as Sete Maravilhas dos Doces.  Espero que um dia nos caia na rifa as Sete Maravilhas dos Solares

No seu entender, o que tem Ponte de Lima de tão especial para atrair turistas?
Vivi sempre em Lisboa, na minha meninice. Ponte de Lima tem uma mística que vai muito para além da ponte medieval, ponte romana, que é o facto de ser uma Vila bem preservada, e tem um relacionamento com o património bem interessante. Ponte de Lima é atrativa, mas também tem as pessoas. Sempre houve o imaginário de um certo nível, não direi aristocrático, mas um pouco, e não queria usar a palavra erudita, mas é, de certa maneira, por força das pessoas e famílias oriundas de Ponte de Lima. Costumo dizer que o Vale do Lima é um Petit Loir, de um lado e do outro do Vale do Lima há solares de famílias portuguesas como tem o Vale do Loire. A nossa dimensão não é a dimensão dos Castelos de França, mas, à semelhança, são casas mais sóbrias, onde se fixaram parte das famílias portuguesas com destaque na vida quer social, quer pública. Ponte de Lima é o coração desse Vale do Lima. 

O turismo está ao rubro. Podem, os portugueses, esperar ainda mais anos de crescimento neste setor? 
Há um arrefecimento da economia, quer a nível da União Europeia, quer a nível internacional. Passa-se que, no Turismo, os destinos que estiveram arrefecidos, durante estes últimos anos, por força das guerras e conflitos, como é o caso da Turquia, da Tunísia e do Egito, começaram, novamente, a reconstruir-se e a atrair os turistas. Apesar de nós termos conseguido fixar algumas situações em termos de atratividade, como foi o caso da compra de imóveis, que teve a sua influência na França e na vizinha Espanha. Isto não vai toda a vida disparar da forma que estava a disparar, aliás, na época baixa, já há quem se queixe. Mas também é normal, nós temos uma forte sazonalidade. Agora, há mercados emergentes que são mercados potenciais muito grandes, que é o caso dos Estados Unidos. Nós estamos a receber muitos americanos. Também do Brasil. Cada um tem as suas características. Esta nossa frente atlântica é muito importante para nós catalisarmos turistas. Nós, Turismo de Habitação, estamos numa posição muito interessante. O futuro turista tem o nosso perfil. Aquele que gasta dinheiro, aquele que realmente vem e volta. Acredito que a aposta no Turismo de Habitação é uma aposta com futuro.

Para terminarmos. O que é que faz nos tempos livres?
Gosto de andar a cavalo. Tenho pouco tempo para os tempos livres. E associo um bocado as minhas viagens a poder disfrutar um bocado dos destinos. Eu, na realidade, gosto de viajar. Há outra coisa de que gosto e não faço. Sou Presidente do Clube de Golfe de Ponte de Lima. É um gap na minha vida, mas que vai mudar, porque vou começar a jogar golfe outra vez. 

Fica o convite para jogar, este ano, no nosso torneio da Villas&Golfe...
Até lá tenho de melhorar o meu handicap (risos).


Maria Cruz
T. Maria Cruz
F. ©PMC