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· Cultura · · T. Filomena Abreu

São José Lapa

«Não olho para trás com arrependimento»

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F. Maria Cruz

O sino da basílica assinalou, imponente, o início da conversa. Eram 17 horas de uma sexta-feira solarenga. Sentada numa mesa de café no Jardim da Estrela, em Lisboa, São José Lapa, atriz e encenadora, sobressaía entre o arvoredo alaranjado pelo lento cair do dia. Qual «loira resplandecente», brincou. E ali ficamos, quase uma hora, embaladas nas gargalhadas, nas palavras e nas memórias. Da menina e da mulher. Da mãe e da atriz. Da mentora do Espaço das Aguncheiras, onde partilha com a filha, Inês Lapa Lopes, uma das suas grandes paixões. A cultura está-lhes na boca, na pele, na alma, no coração.  

 

Como aconteceu o despertar para o mundo do espetáculo?
A minha estreia em teatro foi com a minha mãe. Ela foi professora de piano, durante muitos anos, numa escola privada. E fazia sempre aquelas famosas teatradas de Natal. A primeira vez que pus os pezitos no palco foi a fazer de pastora. Os meus pais cantaram no Coro do Teatro Nacional de São Carlos – pertenciam ao coro da Emissora Nacional –, e uma pessoa habitua-se. As pessoas nascem nos seus meios – há muita gente que nasce fora do meio e faz coisas artísticas extraordinárias –, mas aqui o ‘caldinho’ já estava feito. Agora, como é que comecei? Eu nunca quis ser atriz, não era uma coisa que sonhasse. A minha irmã [Fernanda Lapa] começou a dar os primeiros passos no teatro no Grupo Fernando Pessoa. Tinha para aí 18 anos, e os meus pais só a deixavam ir aos ensaios se fosse comigo. Portanto, eu apanhei estuchas de teatro que vocês nem imaginam. Coisas interessantes, coisas menos interessantes, mas foi a minha escola. As primeiras atuações  que fiz foram em 1971 com a minha irmã, nomeadamente uma peça do Almada Negreiros (Deseja-se Mulher), e depois, a partir daí, foi a inconsciência completa. Pensava «Afinal isto é fácil!» (risos).

Então não queria ser atriz?
Não, não. Eu queria ser tanta coisa. Eu queria era ir-me embora… como fui, para Londres… Era para ter sido um ano, mas ao fim de um mês vim-me embora.

Porquê, não se adaptou?
Porque custa muito trabalhar (gargalhadas). E foi bem feito para eu perceber o que era. Tomava conta de bebés numa casa de tias e tios com muito dinheiro. Tinham três crianças insuportáveis (risos) e à noite eu queria ir para as boates. E ia, mas de manhã tinha de me levantar às 6h30 e aquilo custava-me horrores. Ao fim de um mês encontrei um músico muito conhecido da nossa praça, o João Maló, que é um querido, e ainda fomos fumar umas ganzas... É, fumávamos de vez em quando, e roubávamos o leite, porque lá punham o leite à porta de casa. Tinha eu 19 anos! Naquela altura, o João tinha um amigo que vinha para Portugal. De manhã, a senhora estava a chegar, tinha ido levar as crianças à escola, e eu, com as malas à porta, disse-lhe: «Vou-me embora». Ela ficou sem ar. Aquilo foi horrível. Primeiro, tinha inchado imenso com a comida de lá, não me dei bem. Segundo, percebi que eu tinha era de estudar, era uma cábula, tinha de estudar se queria fazer alguma coisa em termos. Quando regressei, fui estudar e depois tirei o curso do Conservatório Nacional.

«A primeira vez que pus os pezitos no palco foi a fazer de pastora» 

Foi livre toda a vida...
Exatamente, exatamente!

Mas quando deu conta, já tinha uma carreira...
Sim, quando ingressei no Conservatório já foi mesmo por opção. O Curso Superior de Teatro era uma coisa acima da média e havia malta muito interessante no meu ano. Desgraçados, só eu é que fiquei como atriz (risos). De resto, uns foram para a política, como o Sampaio da Nóvoa, o Jorge Fraga, que está em Viseu, e mais uns quantos. Era o que tinha de ser. E depois fui convidada para ser atriz residente do Teatro Nacional D. Maria II, e foi isso que me safou.

Nessa época, havia muitos entraves para as mulheres?
Havia meia dúzia de mulheres, não havia muitas mais. Malta gira. Miúdas ligadas à intelligentsia intelectual e artística, que se encontravam no São Carlos. Núcleos pequeninos. Uns ligados à política, outros menos. Eu tinha alguma inconsciência política. Tinha noção de que a ditadura existia e de que as pessoas estavam presas e eram torturadas. Tinha noção de que as mulheres eram absolutamente aperreadas pelos homens, não havia direitos, não se podia sair, mas não tinha uma atitude política efetiva.

E teve noção de que desbravou muito terreno para quem veio a seguir?
Não, as coisas são o que são. É por contacto, por osmose, que a sociedade vai mudando, e a sociedade mudou. As pessoas davam entrevistas, as coisas eram e são discutidas.

«Eu gosto muito de estar na minha casinha a fazer as minhas coisinhas, nas Aguncheiras» 

Mas tem ideia do que é para o país e do que representa para as pessoas?
Não (risos). E também não acredito nisso, porque as coisas mudam muito rapidamente. Tenho uma noção muito real da existência. Se eu fizer as coisas bem feitas da perspetiva ética, que é o que me importa, tudo bem. Eu gosto muito de estar na minha casinha a fazer as minhas coisinhas, conceber espetáculos, performances, tertúlias e exposições no Espaço das Aguncheiras. Tudo com a minha filha, a Inês Lapa Lopes, e outros cooperantes.

Essa é a sua verdadeira paixão?
Exatamente. E porquê? Se calhar vem da pastora (risos). E não só. Nós tínhamos umas tias, do lado do meu pai, muito ricas. Mesmo ricas. As gajas não nos deixaram nada. Nada. Gastaram tudo (gargalhadas). Então, passávamos o verão entre o Estoril e Caxias, onde as tias Teresa e  Júlia tinham as casas.
Na altura, no Estoril, havia meia dúzia de casas. A minha irmã brincava com o estupor que agora mata elefantes, o espanhol, Juan Carlos, porque eles estavam ali retidos. Depois, em setembro, íamos para a casa da minha avó nas Beiras. Portanto, isto era sempre um mix, e a realidade sempre foi mostrada a duas cores, o que é interessante, porque se fica com a noção das coisas. E foi assim a vida. Sobre o Espaço das Aguncheiras podes falar tu, filha...

 
A filha de São José Lapa, Inês Lapa Lopes, junta-se à conversa...

 

Inês Lapa Lopes (ILL): Manter o Espaço das Aguncheiras é o mais difícil. Tudo começou em 2006. A São José encontrou aquele espaço maravilhoso, apaixonou-se e quis tê-lo...

São José Lapa (SJL): Deixa-me só contar o preâmbulo… E depois a minha filha viu que a mãe estava a fazer o luto do teatro, porque eu tinha saído do Teatro Nacional, e dizia «Ó mãe, tens de fazer qualquer coisa, ó mãe...»

ILL: E fizemos. Só que, no início, estávamos a divergir para coisas que não eram a nossa área. Tivemos um curso de agricultura biodinâmica, mas a verdade é que não era a nossa área. E assim voltamos atrás e fizemos, em 2006, O Sonho de uma Noite de Verão.

SJL: Foi uma coisa... Havia 600 pessoas a entrar por ali dentro, no último dia!

ILL: Constituímos a Cooperativa Espaço das Aguncheiras a partir desse espetáculo.

A São José olha para trás e vê algo de que se arrependa de ter feito ou de não ter feito?
Não ter feito... Se calhar gostava de ter tido menos pruridos em fazer algumas coisas só por uma questão monetária (risos). O Herman José, quando eu fiz o Humor de Perdição, perguntou-me se não queria fazer publicidade. Foi o primeiro, eu estava no Nacional, e disse-lhe que não achava muito lógico estar no Teatro Nacional, uma coisa institucional, e andar a fazer publicidade. E ele estava-se a ‘cagar’ para o institucional. E bem (risos). São opções que na altura tomei, não olho para trás com arrependimento. Nem me sinto mal, talvez porque as coisas foram todas feitas com o coração.

«Gostava de ter tido menos pruridos em fazer algumas coisas só por uma questão monetária» 

E o seu maior orgulho?
Isso também não tenho... Não! Tenho, tenho, o meu maior orgulho é a minha filha. E tenho orgulho da minha existência, não me conspurquei com ninguém, não fiz nada que me desse nojo. Já fui mais de juízos de valores sobre os outros. Agora tento não fazer, acho que estou muito mais contida... É a idade (risos). E talvez seja essa a maior aprendizagem da vida. De qualquer das maneiras, sou contra a corrupção. Aí ninguém me apanha a dizer o contrário! 

E a sua relação com o atual estado da cultura?
Já esteve pior (gargalhadas). Já esteve muito pior. Nós fomos muito ostracizados durante o percurso do Pedro Passos Coelho, e eu tive de bater o pé. Foi reconhecido e notório. Andei, mais a Inês, pelas manifestações, fui à Assembleia da República, falei com todos os partidos, todos. Agora não irei, com certeza, a todos os partidos. Mas espero não precisar de ir também. Espero que o partido vigente tome medidas que sejam consentâneas com a quantidade de pessoas que estão a trabalhar e que têm valor.

O que a faz sorrir no dia a dia?
Sabe, eu era sisuda, até aos meus 4 anos e meio. O meu pai andava sempre a tirar-me fotografias e dizia: «Zezinha, ri-te», e eu fiquei com riso facial. Mas se estiver ‘fechada’, tenho uma cara duríssima. Sou como a minha avó! (risos). Mas tem de ser. E também porque me sinto mais leve. É a boa energia.

F. Maria Cruz
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F. Direitos Reservados
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Filomena Abreu
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