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D. Américo Aguiar

«Não há sofrimento nem nuvem negra maior do que aquilo que aconteceu»

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Sessão fotográfica decorreu na Rádio Renascença

Presidente do Grupo Renascença, bispo auxiliar de Lisboa, presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023 e responsável pela Comissão Diocesana que investiga o abuso sexual de menores na Igreja. Mas esta é só uma ínfima parte do extenso trabalho de D. Américo Aguiar. Um homem do Norte, um homem de Deus e um escuteiro, que aos 48 anos é uma das grandes figuras nacionais da Igreja Católica. Energético e sempre disponível, recebeu-nos no seu gabinete, na Rádio Renascença, em Lisboa, onde se fez acompanhar de alguns amigos.

 

Grande parte do que somos em adultos deve-se à nossa infância. Assim sendo, quem era o pequeno Américo?
(Risos) Muito bem, então vou trazer para a conversa uns amigos. Eu era um jovenzinho de uma freguesia, de uma paróquia, de uma terra chamada Leça do Balio, que pertence ao concelho de Matosinhos e faz fronteira com o concelho da Maia. Sempre tive uma relação muito próxima, quer com a Maia, quer com Matosinhos, em adolescente e depois em adulto. Até trabalhei na Câmara da Maia, com o professor Vieira de Carvalho. E fui eleito autarca em Matosinhos, com o Narciso Miranda. Sou o sétimo mais novo de uma ranchada de filhos. A certa altura, andava na catequese com os meus amigos, mais ou menos da mesma idade, e no clube de interesses ganhou o Vasco Granja e a Banda Desenhada na RTP. Portanto, ao domingo de manhã, como miúdo, era-me mais confortável não ir para a catequese e ficar a ver televisão. Tinha grande afición pelo Tio Patinhas. E uma paixão pelo Zezinho, pelo Huguinho e pelo Luisinho, porque eram escuteiros mirins, e eu sempre quis ser escuteiro. Em 1987, este teu amigo tinha 14 anos, e anunciam lá na paróquia que vão abrir um agrupamento de escuteiros. Fui dos primeiros a inscrever-me. E perguntavam: «Nome?» Respondíamos, fulano de tal. «Ano de catequese?» E eu: Não ando na catequese. Disseram-me: «Ai, mas tem de andar, porque o CNE (Corpo Nacional de Escutas) é escutismo católico, tem obrigatoriamente de andar na catequese.» E lá fui eu de arrastos para a catequese. A certa altura, o chefe dos escuteiros, de seu nome José Teixeira, disse-me assim: «Olha lá, tu não gostavas de ir ao encontro que há na Diocese do Porto, no Seminário do Bom Pastor, em Ermesinde? Há lá umas reuniões uma vez por mês para rapazes que ponderam ser padres.» E aquilo foi uma coisa estranhíssima...

Porque nunca sequer lhe tinha passado pela cabeça ser padre...
Não! E pior, no grupo dos escuteiros tínhamos tido um jovem, o Augusto, que foi para o seminário. E nós fizemos-lhe a vida negra. Hoje chamar-se-ia bullying (risos). E ele desistiu. Portanto, nesse seguimento, essa coisa foi assim um bocado estranha. Mas lá fui durante uns meses e depois saí. Nessa altura, estava civilmente muito ativo. Trabalhava na Câmara da Maia e fui o primeiro ecoconselheiro do país. Também fui candidato à Assembleia Municipal de Matosinhos e à Assembleia de Freguesia da minha terra, nas eleições desses anos, nos inícios dos anos 90. Assim, estive lá uns meses no seminário, mas saí e continuei o meu trabalho.

«Às vezes, é preciso um gajo que não tenha vergonha na cara. E, às vezes, sou esse fulano»

Saiu convicto de que o seminário não era para si?
Sim, ‘convencidinho da silva’. Agora é mais fácil, olhando para trás. Mas, naquela altura, qualquer coisa não estava bem. Era profissionalmente ativo, profissionalmente realizado, mas faltava algo. Um dia, no verão de 1995, vou visitar o reitor do Seminário do Bom Pastor, o Cónego Sousa Marques. E ele diz-me: «Estava à tua espera. Saíste do seminário, mas acho que estás tocado, estás chamado. Acontece que estavas envolvido no coração, na cabeça, e em todos os sentidos, com muitas coisas. Então é assim, regressa, mas com uma condição, desligas-te disso tudo.» Fui ordenado em 2001, pelo senhor D. Armindo Lopes Coelho e foi uma caminhada muito importante. E depois, fui dando razão ao Cónego Sousa Marques, quando temos um só foco é uma coisa, quando somos como as impressoras multitarefas há sempre algo que depois não funciona.

Mas toda a sua vida foi pautada por isso. É um homem energético, tem feito de tudo, tem chegado a todo o lado. No fundo, esse jovem continuou a existir, noutros termos…
Lá está, às vezes, aceito que ser esta máquina multitarefas é útil para aquilo que me rodeia e até para as pessoas que acabam por usufruir desta maneira de ser. Digo muitas vezes que ter férias é mudar de assunto – basta mudar de assunto, de dossier, que já descanso. Não sei se é qualidade ou defeito, não aprecio estar de ‘papo para o ar’.

«Tudo o que de mau poderia ter acontecido aconteceu» 

É feitio...
É feitio (risos). Tive muito gosto em estar envolvido em algumas ações e tarefas que me deram muito prazer. Acredito que esta loucura seja catalisadora de, nas instituições, nas pessoas e em diversas circunstâncias, fazer com que as coisas aconteçam. Às vezes, é preciso um gajo que não tenha vergonha na cara. E, às vezes, sou esse fulano. Que pede, que pergunta e que provoca. Isso sempre me agradou. Mas só depois de tentar cumprir com o trabalho mais quotidiano, que passava, na altura, por acompanhar os bispos do Porto, porque, eu fui o secretário, o vigário-geral, e fiz o que pude, com a ajuda de todos e com a paciência dos bispos e dos outros colegas. No dia de São Pedro de 2015, o cónego João Aguiar, meu antecessor na Rádio Renascença, e o cónego Álvaro Bizarro falaram com o Bispo do Porto, o senhor D. António Francisco dos Santos, consultando-o se ele me libertava para eu vir presidir a Renascença.


Na realidade, sempre foi um comunicador…
Foi agridoce. Confesso que nunca na vida me tinha passado pela cabeça a Rádio Renascença e o conselho de gerência. Nunca na vida. Mas, em 2015, vim para Lisboa e, em 2016, quando o cónego João Aguiar deixa a Renascença, eu fico como presidente do conselho de administração, de gerência e depois, no dia 18 de fevereiro de 2019, toca o telefone e a partir daí sou Bispo Auxiliar de Lisboa. Quando tudo estava mais ou menos normal, soubemos que íamos organizar a Jornada Mundial da Juventude. Portanto, só coisas divertidas.

«Omedia em geral têm sofrido muito»

O relatório da comissão independente para o estudo de abusos sexuais na Igreja Católica vai coincidir com a Jornada Mundial da Juventude de 2023. Isso pode ensombrar o evento, pode afastar os jovens, fazê-los ter medo de se associarem à Igreja?
Em relação a esse dossier, a partir do momento em que o Pedro Strecht e a sua equipa iniciaram os trabalhos, nós, os bispos principalmente, não nos devemos pronunciar. Ou seja, deixaremos que se faça o trabalho. Como diz o slogan «Dar voz ao silêncio». Há muito ruído, chega o que chega. Devemos deixar que as coisas aconteçam, deixar que os corações se abram, que as feridas possam ser tratadas. É obvio que toda a temática é de sofrimento, mas não é de tanto sofrimento como para as pessoas que viveram as circunstâncias e, portanto, coração aberto, transparência total, tolerância zero, como nos pede o Papa Francisco. É preciso. É colocarmos tudo no coração de Deus. Tudo o que de mau poderia ter acontecido, aconteceu. Tudo o que vier a acontecer não será comparável ao mal que aconteceu na vida de pessoas com rosto, com nome, com histórias de vida reais. Isso é que foi o problema, esse é que foi o sofrimento. O que vier, na verdade, ajudará a que todos nos libertemos, seja a Igreja, sejam os agentes. Não temo, nem os calendários, nem a temática, porque o que tem de ser feito deve ser feito, e não há sofrimento nem nuvem negra maior do que aquilo que aconteceu.

Como tem sido estar à frente da Renascença numa altura em que os meios de comunicação enfrentam tantas dificuldades?
Os media em geral têm sofrido muito e esta última crise económica e a pandemia levaram-nos a passar os limites daquilo que é a nossa capacidade de resistência e resiliência. Temos sempre noção, olhando para trás, de que quando as crises passam nunca regressamos aos níveis anteriores. O cónego João Aguiar dizia-me, quando eu vim para cá, que a publicidade é como um bolo-rei, de que todos tiram fatias. Com estas crises todas passamos de um bolo-rei para um bolo de arroz e os que comem são os mesmos. Mantivemos quase todos os gastos, mas a receita é menos de metade. Foi preciso reajustar as coisas e a pandemia veio acelerar ainda mais a urgência de um novo paradigma de financiamento e de sustentabilidade dos media, que eu não te sei responder qual é. Não é fácil, porque os vários agentes têm posições diferentes, os jornalistas não pensam todos igual, os donos dos media não pensam igual, o Estado tem uma perspetiva muito especial... Não há entendimento fácil. Mas é importante para a sociedade, que se quer democrática, ter medias. E ter medias saudáveis. Isso é fundamental.

T. Filomena Abreu
F. Nuno Almendra
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