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· Personalidade · · T. Filomena Abreu · F. Nuno Almendra

Henrique Gouveia e Melo

«Em Portugal, parece-me importante passar da reflexão aos atos»

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Há muito que um militar não atraía tantas atenções. Henrique Gouveia e Melo, vice-almirante, submarinista, vestiu durante meses o camuflado, após assumir a coordenação da Task Force do Plano de Vacinação Contra a COVID-19, prometendo só o tirar quando a sua missão acabasse. Saiu-se bem e, portanto, oito meses depois voltou ao seu uniforme da Marinha. A percentagem traçada para a imunidade de grupo foi garantida, nesta que reconhece ter sido uma das principais missões da sua vida. Na História de Portugal, o dono do desafiante olhar azul será sempre lembrado como o «almirante das vacinas».

Se lhe fosse possível eleger, quais seriam os momentos que mais marcaram o país e o mundo nestes últimos 20 anos?
A nível nacional, parece-me incontornável referir a crise económica, iniciada em 2010, com a inerente chegada da Troika, que nos veio lembrar que não há «almoços grátis». Só dando-nos ao respeito e tendo confiança nas nossas capacidades – e estando atentos às circunstâncias inerentes ao nosso percurso como Nação, de que resultaram alguns atrasos e fragilidades –, poderemos participar, com algum grau de autonomia, nas alianças, sejam elas regionais ou mundiais. A demanda por espaços marítimos, com elevadas riquezas naturais no seu subsolo passaram a estar na agenda internacional. A possibilidade de Portugal vir a estender a sua soberania jurisdicional e económica, sobre um espaço marítimo que equivale a 80% do continente europeu, poderá vir a modificar o futuro da nossa nação, podendo constituir-se, em função da nossa atitude e determinação, ou como uma determinante oportunidade geoestratégica/económica ou como uma ameaça à nossa soberania/autonomia futura.Ao nível internacional, considero que os ataques terroristas aos EUA, a 11 de setembro de 2001, e a pandemia COVID-19 foram, sem dúvida, dois momentos que alteraram, de forma muito significativa, o paradigma mundial. Começando pelos ataques de 11 de setembro, considero que estes materializaram a transformação de um mundo bipolar e de guerra fria – característico da segunda metade do século XX – para um outro, mais mediático, assimétrico e multipolar, que tem vindo a marcar as últimas décadas. Esta mudança, com efeitos globais e com efeitos concretos no dia a dia de todos nós, afeta os sistemas políticos, em especial os designados por ocidentais, facto que nos deve fazer refletir como indivíduos e como nação pertencente ao mundo «ocidental».  Quanto à pandemia da COVID-19, acredito que esta nos veio mostrar quão frágil é a condição humana, alertando-nos para a já muito propalada necessidade de políticas globais e de abordagens mais solidárias. Parece-me fácil relacionar este fenómeno com outros já em curso e igualmente de dimensão planetária, como as alterações climáticas e o desenvolvimento assimétrico dos quais têm resultado focos de violência e instabilidade regional, num mundo cada vez mais interconectado pela globalização. 

Profissionalmente, qual foi o momento mais decisivo para si nestas duas décadas e qual o motivo de o destacar?
Na minha vida profissional, apraz-me apontar dois momentos. Primeiro, aquando do processo de aquisição e vinda dos submarinos da 5.º Esquadrilha para a Marinha Portuguesa, que constituiu um salto tecnológico muito significativo, com as inevitáveis mudanças ao nível administrativo e operacional, período durante o qual assumi as funções de comandante da Esquadrilha de Submarinos. Em segundo lugar, as funções de na Task Force, onde fui incumbido de coordenar o complexo processo de planeamento e execução da vacinação da população portuguesa. O sucesso desta missão permitiu salvar vidas e contribuir para o libertar da economia, ajudando, em paralelo, o regresso a uma quase normalidade no dia a dia dos portugueses.

Qual seria, no seu entender, a mudança mais urgente que o país e o mundo precisariam operar nos próximos 20 anos?
Em Portugal, parece-me importante passar da reflexão aos atos e desenvolver um modelo económico e estrutural que permita ao país subir na escala de valor das cadeias de produção e comercial. Isto implicará, a meu ver, um desenvolvimento sustentável em equilíbrio com a Natureza, apoiado numa sociedade com uma classe média alargada, onde o bem-estar responda aos anseios naturais dos portugueses, evitando o desenvolvimento de extremismos, radicalismos e utopias geradoras de caos, de destruição e de sofrimento em alguns estratos da população. Existe, da mesma forma, o desafio de estarmos a caminhar para uma sociedade demasiado envelhecida, colocando em causa a sua própria sustentabilidade e capacidade renovadora. É por esta razão essencial repensar o atual modelo e alinhá-lo de maneira a permitir isso mesmo, através do fomentar da natalidade e/ou, eventualmente, com a ajuda da imigração controlada assente num sistema de educação e de desenvolvimento abertos, cosmopolitas, tecnologicamente dinâmico e atrativo e culturalmente inclusivo.Internacionalmente, os diversos Estados deveriam desenvolver uma competitividade positiva, reforçando o determinante vetor da solidariedade entre si, considerando que navegamos num mesmo oceano e, quantas vezes, o cruzamos no mesmo barco. Como atrás referi, esta pandemia é um bom exemplo de solidariedade, mas também da falta dela. O desenvolvimento rápido de uma vacina no lado positivo e, no lado negativo, a apropriação das vacinas pelos países ricos, de que resultou uma fraquíssima disponibilidade para os países mais pobres. Estamos, por isso, perante um cenário em que a maioria dos países ricos já possui uma larga percentagem da sua população vacinada, apenas travada por movimentos negacionistas com algum significado, enquanto os países mais pobres possuem percentagens de vacinação muito reduzidas, na ordem dos 4 a 5%.Torna-se também necessário e urgente uma mudança de atuação, de forma consequente, no combate às alterações climáticas. A mudança que permitirá reforçar a solidariedade entre os povos e espaços culturais e económicos será, eventualmente, e apenas possível, com uma reforma das instituições extranacionais, bem como com o reforço jurídico internacional das decisões tomadas.
T. Filomena Abreu
F. Nuno Almendra
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