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A arte das barricas

Da floresta à adega

A tradição da tanoaria na família está presente há mais de cem anos, mas a criação da J. M. Gonçalves, em 2001, veio trazer um novo impulso à arte das barricas. Falámos com José Abílio Gonçalves, um dos seis irmãos que estão aos comandos da tanoaria. Entendeu que estudar enologia era uma mais-valia para o negócio. E tem sido, de facto. A formação académica e o know-how ‘herdado’ de quatro gerações de tanoeiros fazem-no falar com paixão e orgulho da tradição de família, das madeiras, das barricas e do seu processo de produção.
José Maria Gonçalves foi toda a vida tanoeiro, assim como o seu pai. Trabalhou muitos anos nas principais tanoarias francesas e regressou a Portugal no ano da Revolução. Era um homem à frente do seu tempo, uma vez que só a partir da década de 80 o uso das barricas proliferou. Os seis filhos de José Maria quiseram pegar no negócio, com uma nova filosofia, apostando em novas e modernas instalações, nas certificações, no mercado internacional e no controlo da origem das madeiras.
Fica em Palaçoulo, Miranda do Douro, uma zona do interior e, por isso, menos favorável para o negócio, ainda que a pureza ecológica inquestionável da região seja benéfica para as madeiras. Mas não foi a localização que impediu que o negócio tivesse sucesso, comprovado pelos inúmeros prémios que têm recebido ao longo dos anos, como Melhor PME Portuguesa Exportadora de Bens Transacionáveis, ou PME Excelência, entre outros.

A J. M. Gonçalves exporta cerca de 90% da sua produção.

«A J.M. Gonçalves foi criada em 2001 e apostámos neste projeto novo, com uma tanoaria nova, que se iniciou em 2004», disse José Abílio, acrescentando que uma das três unidades é ainda a do seu pai, que foi remodelada em 2014. Se a produção do projeto do seu pai se destinava maioritariamente ao mercado nacional, a J. M. Gonçalves exporta cerca de 90% da produção. «Os EUA (Califórnia) são o nosso principal mercado, a Espanha é o segundo», referiu José Abílio. Outro elemento diferenciador deste projeto é o facto de controlarem o percurso das madeiras. «Da floresta à adega, um caminho sempre controlado», diz, orgulhoso, José Abílio. O carvalho francês é a madeira mais usada e, logo depois, o carvalho americano.
«As barricas têm nomes diferentes porque têm características técnicas distintas», diz José Abílio. Selection, White Selection, White Reserva, Grande Reserva, Spin Barrel, Red Fruit são alguns tipos de barricas. Algumas são produzidas com grão fino e outras com grão extra fino. «O grão é a velocidade de crescimento da madeira. Ela vai crescer, em média, oito a dez anéis por centímetro. No grão fino são três a cinco anéis por centímetro. O extra fino tem um custo superior, o que resulta numa barrica mais cara», explicou José Abílio.

«Da floresta à adega, um caminho sempre controlado»

Cortar a madeira em aduelas, lavagem, secagem (de 24 a 36 meses), montagem, tratamento térmico, no qual se inclui a queima, são algumas das etapas de produção. «Temos protocolos de queima que são feitos a temperaturas baixas para que seja mais profunda, ou temperaturas mais altas, mais superficial. Também temos as intensidades. Aí podemos ir buscar as notas de mais ou menos torrefação», diz-nos José Abílio. A etapa final é a embalagem. «Somos a única tanoaria que tem um protocolo de carregamento de contentores e embalagem da barrica. Colocamos sempre um plástico filme, para evitar perigos de contaminações, porque temos transportes que demoram dois meses até ao destino». E, no destino, novos néctares terão gosto a Portugal, aromas de uma arte que é feita com paixão!

Maria Amélia Pires
T. Maria Amélia Pires
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