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Benvindo Fonseca

Nascido para dançar

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Voou pelos palcos do mundo e envolveu-se nas personagens, mostrando os gestos da alma. De Moçambique, onde Benvindo da Fonseca nasceu, veio-lhe a dança que lhe deu e tirou um pedaço de vida. Vestiu-se de Fénix, carregou as suas cinzas e voltou a brilhar.
Decorria o ano de 1964 quando Benvindo da Fonseca veio ao mundo em terras do Niassa, local onde os pais, cabo-verdianos de origem, chegaram a mando do governo português. Por entre a magia da terra vermelha, o cheiro intenso da floresta e as correrias felizes de pés descalços pelo mato, foi crescendo um bailarino, mas ainda ninguém sabia. O pai, funcionário público das finanças e futebolista em ascensão, foi destacado para aquele local, sem conseguir brilhar no jogo da bola porque fazia barulho, o que levou a antiga polícia política portuguesa a estar algumas vezes no encalço da família. Benvindo da Fonseca, que herdou o nome do pai, tinha energia a mais e, para se cansar, jogou ténis e fez patinagem artística, modalidades que começavam a moldar o seu corpo ainda de criança. Em 1972, a família muda-se para a antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, e, em 1979, partem para Lisboa.
Para trás, ficaram memórias que nos recorda: «Lembro-me de tudo, até sinto os cheiros e recordo-me dos olhos dos meninos muito vivos, não há igual em nenhuma parte do mundo, têm o espelho da alma retratada». Em Lisboa, o rapaz que queria ser Beatle, porque acreditava ser uma profissão de artista, faz uma audição no teatro ABC do Parque Mayer para um musical de Francisco Nicholson, que nunca estreou. Quem o viu disse que ali estava o jovem Leroy da série Fame que passava na televisão naquela época. Impulsionado pelos comentários e pelo dom natural com que nasceu – como revela: «O mais difícil na dança clássica era saltar e rodar duas vezes, o duplo tour, rodava três vezes sem saber o que estava a fazer» –, ganha uma bolsa para estudar no Conservatório. Em vez de ser principiante, segue para o quinto ano, muito devido à sua agilidade. Tinha 16 anos e ia começar a voar pelos palcos. O Conservatório era bom, mas a escola do Ballet Gulbenkian era aliciente. Tenta uma vez e, por ser considerado gordinho, não entra. Não desiste, volta no ano seguinte mais delgado e, dos trezentos bailarinos, três vão ingressar na escola, ele também vai. Ao mesmo tempo que tem aulas de dia, dança à noite na Sétima Posição de Liliane Viegas que o acompanhava há muito tempo. O bailarino e coreógrafo Rui Horta faz dele solista na Companhia itinerante do Ballet Gulbenkian, um contrato que trazia consigo uma bolsa para estudar em Nova Iorque.

Foram dez anos ao serviço do Ballet Gulbenkian como bailarino principal, vestido com repertórios de luxo, alguns preparados só para si. 

Seguiu caminho e decidiu que entraria na Alvin Ailey, companhia de bailarinos afrodescendentes, que é referência pelo seu nível de exigência. Faz a audição e consegue entrar. Quando volta a Lisboa, para preparar as despedidas, faz uma aula na Gulbenkian só para memória futura, mas é chamado para uma reunião urgente com Jorge Salavisa, o seu diretor. Desse encontro resultou um contrato como solista, que se transformou em primeiro bailarino B e, de uma forma rápida, em primeiro bailarino A. Foram dez anos ao serviço do Ballet Gulbenkian como bailarino principal, vestido com repertórios de luxo, alguns preparados só para si, pelas suas naturais características, que levou a quase todos os países do mundo. A primeira bailarina que elevou foi Graça Barroso, algo que para si era inimaginável, e foi o seu último partner. Do esforço e de muitas horas a dançar resultou a temida fratura de stress, na tíbia, à qual não ligou, compensando a dor que sentia na outra perna, o que provocou uma grave lesão, ficando proibido de dançar, no auge da carreira, com 33 anos. Benvindo Fonseca ‘morreu’ e ao seu luto juntou a revolta e as recordações, e pensou em suicídio. A figura da mãe e todo o seu carinho venceram o desespero e, dez anos depois, prepara um solo, veste-se de Fénix e recomeça.
O bailarino dá vida a um coreógrafo que pinta os palcos do mundo com amores e desamores, reinventado novos Romeu e Julieta e centenas de outras histórias, e consegue voltar a dançar. Após a morte da mãe, que sempre o incentivou a dançar, coreografou e dançou Cromeleque – Requiem de Mozart, no Panteão Nacional, numa exaltação à vida. O rapaz que foi considerado por Mário Soares «Um Bem Nacional» escapou à tropa obrigatória para não estragar o corpo, obteve dezenas de prémios e, aos 27 anos, é nomeado Embaixador da Boa-Vontade da Organização das Nações Unidas, recebendo o prémio Os Jovens na Criatividade com a ONU. Hoje, com 55 anos, já não voa, mas ainda dança. Agora, os seus pés agarram com força o chão, um pouco a lembrar as corridas descalço que fazia em Moçambique, terra aonde nunca mais voltou. 

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F. Joaquim Leal