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Bordal – Bordados da Madeira

Uma tradição, ponto a ponto

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Das mãos, ora mais jovens ora mais enrugadas, saem os aclamados bordados da Madeira. Os dedos são os verdadeiros donos da tradição. Com perfeição e minúcia, bordam durante horas, dias, semanas e meses, se necessário. Há peças que exigem anos de trabalho. A história do bordado da Madeira começa no início do povoamento da ilha, no século XV, pelas mãos das fidalgas, como necessidade de decoração das roupas do lar e do vestuário de família. Mas a fama só chega em 1850. Nesse ano, foi organizada uma exposição das indústrias madeirenses, no Palácio de S. Lourenço, em que se tornou evidente o potencial económico da arte. Na época, o interesse britânico pela exposição foi tal que a Madeira recebeu um convite para marcar presença, no ano seguinte, na Exposição Universal de Londres. Depois disso, tudo mudou. A pureza e a perfeição artística das peças foram extremamente elogiadas e não demorou muito a estender-se à Alemanha. No século XIX, o bordado da Madeira já chegava aos mercados de Itália, Estados Unidos, América do Sul e Austrália. Seguiram-se Singapura, Holanda, França e Brasil. 
Atualmente, o prestígio do bordado da Madeira é inquestionável. Mas, infelizmente, a mão de obra tem vindo a diminuir. Se na década de 80 havia mais de 30 mil bordadeiras em toda a região autónoma, os últimos dados oficiais apontavam para a existência de apenas 1500 no ativo. Dessas, sabemos que 400 trabalham para a Bordal, a fábrica e loja que produz e comercializa o renomado bordado. «As nossas bordadeiras trabalham em suas casas, onde dividem o trabalho doméstico, a agricultura e o bordado», conta-nos Susana Vacas, proprietária e promotora da arte. 

«O nosso bordado é único! Nunca vi nada tão bem feito e tão perfeito»

Na fábrica, no centro do Funchal, está todo o restante processo. É que, antes de chegar às mãos do consumidor final, cada peça tem a sua própria história. Tudo começa na inspiração do desenhador que risca os traços em papel vegetal. É depois passado ao picotador que, tal como a profissão indica, vai picotar todo o desenho. Segue-se a estampagem, que consiste em passar uma esponja com uma tinta azul especial sobre o papel, que marca no tecido as áreas que deverão ser bordadas. Depois, o pano é preparado e enviado para a bordadeira. Uma vez concluída, a peça regressa à fábrica, onde os trabalhos serão verificados, recortados, lavados e passados a ferro. Só no fim o bordado está pronto a ser certificado e vendido, no mercado regional ou exportado. Um processo que continua a ser feito, em todos os passos e fases, da mesma forma que há cem anos.
Quando entrou para a Bordal, Susana não percebia bem o fascínio que a arte madeirense exercia nas pessoas. Só quando começou a ir às melhores feiras de têxteis mundiais entendeu: «O nosso bordado é único! Nunca vi nada tão bem feito e tão perfeito. As nossas peças passam de geração em geração. Na Bordal, onde temos um serviço de lavandaria de bordados, recebemos peças por vezes com mais de cem anos e ainda em perfeito estado de conservação. Se não fosse um bordado perfeito, nunca se poderia manter neste estado durante tantos anos», garante. É por isso que costuma dizer que «um bordado da Madeira é um investimento».
Desde a sua abertura, em 1962, a Bordal, que se especializou nos segmentos de mesa, cama, banho, bebé, entre outros, com recurso a materiais como algodão, linho ou organza, já trabalhou com designers e casas de alta-costura, «durante 15 anos, com a Dior Home. Vendíamos principalmente individuais e guardanapos. E fizemos um projeto com a Chanel para a coleção verão 2005. Foram 13 modelos de blusas, em que 11 foram bordadas com desenhos nossos e duas com os do museu Chanel», recorda Susana Vacas com orgulho. Até à data, a peça mais cara feita na Bordal foi uma toalha de 19 metros, encomendada por uma princesa de Abu Dhabi, que custou 45 mil euros. «Levamos três anos a fazer e foram necessárias várias bordadeiras».
Para conservar o património do bordado da Madeira, a Bordal tem previstas, para o próximo ano, ações de formação nesta área, através da Garanito – Associação de Defesa e Preservação do Bordado Madeira. Afinal, como aqui já foi dito, os dedos são os verdadeiros donos da tradição.

T. Filomena Abreu
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