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· Economia&Negócios · · T. Redação · F. Júlio Dengucho

Salimo Abdula

«Auguro um futuro risonho para a CPLP»

Royal Villas Pub.

Sonhava ser jogador de basquetebol profissional. Não viu esse desejo realizar-se. Ainda assim, o destino risonho levou-o a grandes conquistas. Salimo Abdula tornou-se num dos rostos do empresariado africano mais conhecidos mundialmente. Em entrevista à Villas&Golfe falou do panorama económico e social de Moçambique e da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) onde atualmente assume o cargo de Presidente. Falou do associativismo empresarial, dos negócios e confessou não ter qualquer intenção de um dia voltar à política ou ser Presidente de Moçambique, pois o seu mundo «é o empresariado». É detentor de um dos mais importantes grupos moçambicanos, o Grupo Holding Intelec, é PCA da Vodacom Moçambique, entre muitos outros cargos. É um homem de negócios. Mas mais do que tudo isto, na obra Vida e Visão Empresarial de Samilo Abdula, que aqui também nos refere, é possível conhecer mais detalhadamente o seu percurso. 


Como está o clima de confiança dentro da CPLP?
É verdade que atravessamos alguns momentos conturbados no panorama económico mundial, onde os países da CPLP não ficaram indiferentes, mas, neste momento, do ponto de vista da diplomacia económica, e a avaliar pelo trabalho que temos estado a realizar, estamos otimistas e, portanto, consideramos que o clima é bom. Hoje é possível ver nos discursos dos líderes da CPLP a tónica de debate sobre a livre circulação, criação de um mercado económico e redução de barreiras burocráticas. Isto encoraja-nos e deixa-nos mais confiantes, pela sintonia entre os decisores políticos, diplomatas e empresários, na criação de um mercado económico da nossa comunidade.

O interesse de novos países observadores tem existido? Quais?
Sim. A CPLP tem muitas valências, é uma das comunidades do futuro, considerando o potencial que tem em vários setores. Sabemos que, por exemplo, França, Itália, Reino Unido, Sérvia e Luxemburgo, se tornaram, em 2018, países membros-observadores da CPLP. Isto demonstra o interesse na nossa comunidade.

«Em duas décadas, prevê-se que a CPLP seja responsável por 25 a 27% do fornecimento de energia global»

Quais são os grandes interesses desses países na CPLP?
Nos setores como Energia, Turismo, Agricultura e Indústria, que é certamente onde temos maior potencial de crescimento. Por exemplo, em duas décadas, prevê-se que a CPLP seja responsável por 25 a 27% do fornecimento de energia global. 

Acha que a CPLP será, no futuro, uma das comunidades mais poderosas do mundo? 
Penso que estes dados já dizem tudo. Acho que só depende da nossa audácia, união e foco. Segundo o FMI, se a CPLP fosse um país, seria a 6.ª maior economia do mundo. Temos um potencial imenso de terra, água, recursos do mar, fauna, sol e praia para o turismo, hidrocarbonetos, etc. Se estruturarmos estas potencialidades num mercado económico unido, forte e coeso, podemos, sim, alcançar esse objetivo.

Quais as vantagens estratégicas dos países da CPLP em relação a outros países?
A CPLP representa 3.5% do PIB Mundial; 16,3% das reservas de água doce do planeta; 5.48% do Mar e Plataformas Marítimas do mundo. Três países da CPLP estão no Top 10 das maiores descobertas de Hidrocarbonetos do planeta. Por exemplo, numa altura em que muito se debate no mundo o futuro do setor de energia, cujas fontes e recursos começam a escassear em importantes jazidas do mundo, a CPLP surge como um importante player para o futuro.

«Segundo o FMI, se a CPLP fosse um país, seria a 6.ª maior economia do mundo»

Os países da comunidade de língua portuguesa têm objetivos estratégicos comuns fortes, no mundo, ou estão muito virados para o seu próprio umbigo?
Estávamos unidos apenas pela língua, cultura e História. Mas, hoje em dia, e com o nosso trabalho, podemos dizer que economicamente já estamos a olhar para um crescimento coeso e forte como comunidade, e não só para os nossos umbigos.

Tem sentido que existe vontade política para se afirmar a CPLP?
Neste momento, sim, mas há ainda muito por fazer, de modo a limar algumas arestas, erradicar um certo ciúme, preconceitos e ambiguidades que só atrasaram o nosso crescimento como comunidade! 

A atual direção da CE-CPLP vai conseguir o seu grande objetivo da livre circulação de pessoas, bens e capitais?
Trabalhamos para isso e os resultados estão visíveis e podemos notar em algumas ações que, embora timidamente, concorrem para esse objetivo ser alcançado. Pode verificar que, por exemplo, a mobilidade dentro da CPLP, no que diz respeito a barreiras de entradas e eliminação de vistos, melhorou bastante nos últimos cinco anos. Ainda é pouco, mas vai melhorar com certeza.

Quais as principais barreiras que tem sentido à construção da comunidade de livre circulação da CPLP?
A lentidão nas tomadas de decisão políticas, alguma morosidade resultante do natural processo de mudança e a resistência a essa mesma mudança.

A língua é a maior vantagem no espaço de ação da comunidade de língua portuguesa?
Com certeza, é uma das nossas maiores vantagens. A língua representa um dos maiores custos empresariais, e na CPLP não!

«O povo escolheu pelo caminho que mais garantias lhe oferece de crescimento e sustentabilidade e oxalá que assim seja»

Qual a sua opinião sobre o futuro da CPLP?
Auguro um futuro risonho para a CPLP, fruto de todas potencialidades que temos e que já referi nas respostas anteriores. Mas tudo depende do nosso empenho para buscarmos a almejada consolidação como comunidade económica.

Porque decidiu ser Presidente da CE da CPLP?
A minha entrada para liderar a CE-CPLP foi muito rápida, posso até dizer que me pegou de surpresa. Na época (2013), a CE-CPLP estava num regime de liderança rotativa, por entre os países membros da CPLP. Era a vez de Moçambique liderar a organização por dois anos. No primeiro dos dois anos de Moçambique, foi a Associação Industrial de Moçambique (AIMO), através do Dr. Carlos Simbine, a presidir a CE-CPLP. No segundo ano, era a vez da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) presidir. A CTA indicou-me para o cargo. Foi tudo muito rápido. Quando me apercebi, já era presidente da CE-CPLP. Em 2014, a CE-CPLP passou para um regime de eleições e um mandato de quatro anos. Os meus colegas propuseram que me candidatasse e tive o privilégio de vencer por unanimidade. Agora estamos no segundo mandato, que iniciou em 2018. Em suma, foi um desafio que aceitei por considerar que com a minha experiência profissional e de vida no associativismo, e com o apoio de todos, poderia contribuir para uma CPLP mais forte economicamente. 

E Moçambique?  Acredita numa nova fase económica?
Existe potencial para isso. O país tem recursos minerais, terra arável, mar e demais potencialidades para desenvolver setores como o turismo. Se essa fase económica estiver assente na diversificação da economia e não somente nos grandes projetos como se tende a pensar, eu penso que podemos, sim, ter bons resultados e levar o país ao desenvolvimento.

Existe esperança num novo Moçambique? Vai-se esquecer o passado recente rapidamente?
De qual passado se refere!? Se for a guerra dos 16 anos, penso que o país já se recompôs minimamente dos prejuízos dessa guerra, embora as marcas existam e o povo ainda sinta as dores da mesma. Mas o caminho é para a frente e penso que muita coisa mudou desde o término da guerra até ao momento atual. Hoje temos mais escolas, hospitais, estradas e um ambiente minimamente aceitável para fazer negócios. A pobreza existe, mas tende a ser erradicada, embora ainda haja muito trabalho pela frente.

Com o fecho financeiro dos grandes projetos, Moçambique vai mudar o panorama de desenvolvimento?
Essa é a projeção e esperamos que sim, mas sempre defendi que não podemos confiar apenas numa fonte de renda. Não podemos achar que os grandes projetos serão a solução para tudo. Devemos continuar a apostar em setores como a agricultura, turismo, pesca, entre outros. Em suma, devemos diversificar a economia.

Não reaparecerá a tentação para o renascimento de focos de corrupção perturbadores do desenvolvimento?
Isso sempre existirá, mesmo em comunidades mais desenvolvidas, mas é tarefa de todos combatê-la. 

Moçambique foi a votos e reforçou a confiança no executivo. Acha que esse é mais um voto de confiança que a sociedade civil deu para o Governo avançar com as grandes linhas estratégicas do seu programa?
Penso que é o voto de confiança do povo, e, como se diz, o povo é soberano. Penso que o povo escolheu pelo caminho que mais garantias lhe oferece de crescimento e sustentabilidade e oxalá que assim seja.

«Não podemos pensar que o gás vai resolver todos os nossos problemas de crescimento»

As reservas de Moçambique em moeda estrangeira estão no seu ponto mais alto de sempre devido a impostos do gás. Isso é só o início da consolidação do crescimento?
Espero que sim. Mas é importante «não embandeirarmos em arco» e, como já disse, não podemos pensar que o gás vai resolver todos os nossos problemas de crescimento. É preciso apostar noutros setores e diversificar a economia. Temos de ser competitivos. 

Quais as linhas estratégicas para Moçambique se afirmar como país e no mundo?
Diversificação da economia. Estabilidade política e social. Aposta na educação, infraestruturas, mobilidade e inovação.

Como tem sido acumular a liderança do Grupo Holding Intelec e da CE da CPLP?
Tem sido um enorme desafio. Requer esforço e dedicação mas, felizmente, tenho uma equipa de trabalho que me permite confiar tarefas e estar seguro de que as mesmas serão realizadas. Um bom líder deve saber delegar e, com humildade, confiar na capacidade das pessoas. Só assim conseguimos levar a Intelec Holdings e a CE-CPLP a bom porto. No entanto, estas não são as únicas tarefas que tenho, podemos acrescentar aqui: PCA da Vodacom Moçambique, Consul Honorário da Malásia e outras no mundo associativo e empresarial, fruto do meu historial no associativismo empresarial e de algumas participações sociais que detenho em outros negócios. 

Qual o seu desporto favorito? Joga golfe?
Basquetebol. Tinha o sonho de ser jogador profissional, mas, infelizmente, não foi possível. O golfe é outra paixão desportiva que tenho.

Não lhe parece que Moçambique, sendo um país também de turismo, deve investir no golfe e em resorts de qualidade?
Talvez sim, mas, também, talvez não. Temos alguns resorts bons, porém é preciso aumentar a sua qualidade. Mas, primeiro, devemos fazer um estudo de mercado e ver se temos real potencial para atrair turistas através do golfe. Eu acho que sim, mas devemos fazer um estudo para ter a certeza, para não investirmos no escuro.

Como se transformou num dos empresários mais influentes de Moçambique e mesmo de toda a África?
Com trabalho árduo e muita dedicação. Está tudo descrito no livro Vida e Visão Empresarial de Salimo Abdula, escrito pelo meu amigo e jornalista André Matola. Alguns podem pensar que foi fácil, mas nunca foi. Procurei sempre inserir-me no associativismo empresarial, contribuir para a melhoria do ambiente de negócios no meu país e, agora, na CPLP, e as coisas foram acontecendo com naturalidade até chegarmos a esta fase. O livro descreve com mais detalhes este meu percurso.

Pensa voltar à política e um dia ser Presidente de Moçambique?
Não! O meu mundo é o empresariado, mas a vida ensina-nos que nunca podemos dizer que nunca seremos isto ou aquilo. A minha entrada no empresariado foi inesperada também, assim como na política. Penso que ganhei muita experiência na política e levo aqueles conhecimentos para melhor entender o mundo político e empresarial, mas seguramente que voltar à política ou ser Presidente de Moçambique não faz parte dos meus objetivos.

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F. Júlio Dengucho