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Sérgio Rodrigues

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Ramalho e Manuela Eanes

Former President of Portugal and former First Lady

Há gentes que marcam as histórias. Há histórias que marcam as gentes. É o caso do casal Eanes, que muito teria para nos contar se as páginas desta entrevista se prolongassem por tantas outras. António Ramalho Eanes foi o primeiro Presidente de Portugal democraticamente eleito, após a revolução de 25 de Abril de 1974. Esteve ao serviço militar português, tendo passado por Goa, Macau, Moçambique, Guiné e Angola. Foi Presidente dos portugueses de 1976 a 1986. Manuela Ramalho Eanes foi a primeira-dama de Portugal, a mulher que sempre acompanhou a vida política de Ramalho Eanes, nas visitas oficiais, nas campanhas políticas e nas deslocações ao estrangeiro. É atualmente Presidente Honorária do Instituto de Apoio à Criança, mas foi na área do Ministério da Saúde que ela iniciou a sua carreira. Mantendo-se, ao longo do seu percurso, muito ligada aos mais jovens, através de projetos dinamizadores de caráter formativo, cultural e recreativo, Manuela Eanes mostrou ser uma figura incontornável do panorama nacional. 
Ramalho e Manuela Eanes
Ramalho Eanes: Há algum momento da sua vida que tenha sido mais marcante, enquanto Chefe de Estado, de que se lembre particularmente?
Como sabe, o período em que exerci as funções de Presidente da República foi um tempo e um caminho difíceis, de crises políticas, económicas, sociais e até culturais, pela necessidade de reestabelecer a tolerância entre os Portugueses, de os reconduzir à «vida quotidiana» e os reconciliar com o seu passado, e de proceder ainda à reinstitucionalização democrática das Forças Armadas. Por tudo isto, não há nenhum momento da minha vida, como Presidente da República, que possa destacar, porque todos, pelas suas características próprias, foram marcantes e determinantes para a instauração e consolidação da democracia.

Ramalho Eanes: Já foi criança, filho, jovem, marido, pai e agora avô. Qual destas fases lhe foi mais querida e o deixa mais deliciado?  
Neste momento da minha vida os netos são, naturalmente, uma paixão. Conto, muitas vezes, as mesmas histórias deles. Ao princípio, estava convencido de que as contava para as pessoas ouvirem. Cheguei à conclusão de que as conto para eu também as ouvir outra vez. 

Manuela Eanes: Foi a primeira mulher em Portugal de um Presidente eleito democraticamente. Era jovem e sem experiência. Como encarou o seu papel? 
Com naturalidade. Procurei representar a mulher portuguesa com dignidade, mas nunca fui de me preocupar exageradamente com a imagem. Nem podia. Passámos até por dificuldades económicas. Preocupei-me sempre em ser útil. Tinha muitas solicitações de pessoas que viviam com dificuldades. Sempre trabalhei na área social e sempre tive a mesma atitude na minha vida, ser útil aos outros. Como diz Mounier, «só existimos quando existimos para os outros».
Por exemplo, na altura recebemos de repente em Portugal milhares de pessoas que vinham de mãos vazias, regressadas de África. E havia uma falta de coordenação entre diferentes áreas. Juntei à mesma mesa várias instituições, como o Alto-comissário para os retornados e outras. Organizei, com a ajuda de várias mulheres de diplomatas, o Bazar Diplomático, dei sempre todo o apoio a organizações de artesanato e, com um grupo de escritores de literatura infantil, apoiados pela Fundação Gulbenkian, iniciámos os Encontros de Literatura Infantil. Aos poucos, percebi que podia continuar em Belém o meu trabalho e comecei por reunir um grupo de pessoas ligadas à área social, tanto de instituições públicas como privadas. Criou-se então o Secretariado de Ação Social que, por exemplo, defendia o 115 social, a funcionar 24 horas por dia. Quando o Secretariado acabou, o professor João dos Santos entregou-me em mão um manuscrito que se chamava A caminho de uma Utopia, um Instituto da Criança. Assim surgiu o IAC. O objetivo era a defesa dos direitos da criança e o seu desenvolvimento integral. Quando fizemos o primeiro congresso, em 1984, quebrámos um tabu, quando falámos pela primeira vez nas crianças maltratadas. E este ano celebramos 35 anos! Para comemorar, no Dia Internacional dos Direitos da Criança, a 20 de novembro, vamos fazer um grande concerto solidário na Altice Arena.
«Felizmente, as pessoas são sempre muito carinhosas e há sempre quem nos conte histórias de quando estiveram connosco e de situações que ajudámos a resolver»
Manuela Eanes: o que destaca entre o Portugal de hoje e o Portugal daquela época (pós 25 de Abril)? 
Tanta coisa… O nosso país mudou muito, em todas as áreas – a nível social, a nível de educação, de cuidados básicos, de preocupação com as crianças e os mais velhos… Portugal é, hoje, um país completamente diferente!

Ramalho e Manuela Eanes: Considerando a posição que assumiu enquanto Chefe de Estado, o General Ramalho Eanes, e a posição de esposa, a Manuela Eanes, como foi lidar a nível pessoal, enquanto vida de casal, com todo este mediatismo? 
Fomo-nos habituando a ter um trabalho que nos tornava visíveis para todos, tanto individualmente, como enquanto casal e mesmo família. Os Portugueses viram os nossos filhos crescer... Felizmente, as pessoas são sempre muito carinhosas e há sempre quem nos conte histórias de quando estiveram connosco e de situações que ajudámos a resolver. E essas histórias que nos sensibilizam dão-nos mais força interior para continuar ao serviço dos outros e do País.

Ramalho e Manuela Eanes: De que forma olham para o dinamismo empresarial em Portugal, nomeadamente os jovens empreendedores e o seu papel na sociedade? Que mensagem lhes deixariam? 
ARE: Relativamente à tecnologia, muitos são os que justamente se alarmam com o impressionante progresso das tecnologias de informação e da inteligência artificial. Muitos são também os que sentem preocupação e até perturbação com a ‘promessa’ da aprendizagem profunda (deep learning) e suas possíveis consequências. Este tempo é um momento histórico de mudanças e ruturas. Assim, natural será que valores individuais e sociais sofram perturbação e desapareçam. Mas a nova estabilidade trará os velhos valores com a mesma ou reconfigurada expressão e também novos valores.
MRE: A grande mensagem que importa deixar aos jovens é a de esperança no futuro.
Maria Cruz
T. Maria Cruz
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