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In the Black Fantastic

Onde não habita o preconceito

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Londres viu estrear, a 29 de junho, a tão esperada exposição In the Black Fantastic, na Hayward Gallery. O convite passa por embarcar numa viagem com destino a um universo fantástico, onde a cor e a fantasia são zonas de libertação criativa e cultural, servindo de instrumentos de combate contra a injustiça social e o racismo. Esta nova forma de ver o mundo contou com a perspetiva dos artistas Nick Cave, Sedrick Chisom, Ellen Gallagher, Hew Locke, Wangechi Mutu, Rashaad Newsome, Tabita Rezaire, Cauleen Smith, Lina Iris Viktor, Kara Walker e Chris Ofili. Dirigida por Ekow Eshun, a exposição já captou a atenção do mundo, constituindo-se como o primeiro trabalho fantasioso de artistas negros do Reino Unido.
Não é apenas a cor que faz da In the Black Fantastic uma num milhão. A intensidade dos 11 artistas está reunida nas tradições espirituais do povo africano, na mitologia, na ficção científica, no afrofuturismo e no folclore como veículos de transmissão de várias mensagens. Mas recuemos, primeiro. Entender as raízes do projeto artístico é crucial para explorarmos o mundo fantástico.
O diretor da exposição, Eshun, conta que a inspiração inicial surgiu do cinema, através de filmes como Black Panther, Lovecraft Country e Get Out, que exploram a linguagem fantasiosa sob a perspetiva do povo africano. Na verdade, estes filmes levantam questões profundas sobre etnia, identidade, sentimento de pertença e tudo o que fuja da vulgaridade. Com isto, Eshun viu um motivo, uma oportunidade de partilhar a mesma luta com artistas que não se conformem com a realidade em que vivem, daí a divagação para outros mundos paralelos, outras realidades criadas a partir de expressões artísticas. Comecemos com as obras de Nick Cave, idealizadas para representar a violência racial nos Estados Unidos. A sua arte advém da coleção de Soundsuits, trajes de corpo inteiro que começaram a ser criados em 1992, altura em que a televisão mostrou ao mundo o espancamento policial de Rodney King. O mais recente modelo da coleção é dedicado a George Floyd, uma das vítimas mortais da violência policial nos EUA.

Uma exposição comovente, realizada numa cidade que foi o motor do comércio de escravos

Como forma de honrar estas figuras, os Soundsuits lutam pela invisibilidade numa sociedade de dominação branca. Avançando para os dois pisos seguintes, viajamos pelo universo de mais dez artistas. Alguns deles, nomeadamente, Kara Walker, são personalidades associadas ao afrofuturismo, um movimento que surgiu em 1990, no território americano. Trata-se de uma corrente que marca presença em algumas obras da exposição, facilmente identificada pela junção da ficção científica, tecnologia e fantasia, elementos que exploram a ancestralidade da diáspora africana. Já noutras partes da exposição, sobressai a visão de Locke, com as suas reproduções de insígnias racistas, medalhas coloniais e moedas de escravos, semelhante à perspetiva de Lina Viktor, que explora a Libéria como a nação fundada por africanos que tinham sido escravizados nos Estados Unidos. No último andar, os holofotes recaem na instalação de Cauleen Smith, que se centra num conjunto de objetos de valor pessoal para o artista, reproduzidos por monitores e telas.
As referências a acontecimentos históricos, que persistem no presente, motivam singulares expressões artísticas, aqui, no In the Black Fantastic. O jogo entre o passado, presente e futuro culmina numa complexidade paradoxal de sentimentos e emoções, uma verdadeira jornada de dor, vulnerabilidade, proximidade com a morte, revolta e, em simultâneo, de alegria e vivacidade da cultura africana. Uma exposição comovente, realizada numa cidade que foi o motor do comércio de escravos e possuidora do domínio colonial de países africanos.


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